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Mamonas Assassinas e o Hall da Fama da NFL

02/03/2016

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Mamonas Assassinas e o Hall da Fama da NFL 

Coluna escrita por U10

Eu não passava de um menino de treze anos, com muitos sonhos, um potencial incomensurável e uma doutrina judaico-cristã profundamente arraigada. Pois é, só que não! Um ano antes toda a rebeldia encalacrada por trás daquelas camisas sociais abotoadas até o colarinho e o cabelo sempre bem cortado agora são substituídos por maneirismos, novas amizades e comportamentos inimagináveis. Sim, o rapazinho entrara com tudo na adolescência.

O processo cênico continuara, na medida do possível. As notas não baixaram, mas a linguagem e os bons modos sim. Agora via-se muito Legião Urbana, Plebe Rude e até Aborto Elétrico. Tinha-se Guns n´ Roses, Nirvana e muito Iron Maiden. Questionamentos geopolíticos, confrontamentos histórico-culturais e toda uma gama de pseudointelectualidades passíveis àquela fase da vida. E no meio de tudo isso, numa fita pirata eu ouço pela primeira vez: “Raios! …” E começa algo como um fado, seguido de um metal pesado da melhor qualidade e minha vida jamais voltou a ser a mesma.

Na época vivia no interior do Paraná e sabia que “se eu me comportasse” iria pro Arizona em Fevereiro assistir ao Super Bowl, assim como eu tinha feito meses antes, ver o incrível Niners do Steve Young trucidar o San Diego Chargers. Era só eu ser um bom garoto, nada de mais.

Juro que tentei. Cortei o cabelo, reduzi os palavrões e deixei a vida do meu professor de história muito mais tranquila. Só que dezembro chegou. Dezembro de 1995 e com ele uma festa tradicional em Ponta Grossa. Lá já se vão mais de 20 anos. Eu prometi que não iria em show algum, mas no dia em que os Mamonas Assassinas se apresentaram eu, basicamente, fugi de casa. Não tinha comprado a entrada, não tinha dinheiro, sequer meus documentos estavam comigo. Mas eu daria uma orelha para estar lá.

Tinha bêbado para tudo quanto era lado. Chovia muito. Muito mesmo. Não tinha nenhum conhecido e, se algum deles me visse lá eu teria ainda mais problemas. Foi o show mais f* da minha vida. Nem o Rock in Rio com o Guns ao vivo foi tão maluco. Eu cantei todas as músicas. Pulei feito um alucinado. Pisaram e eu pisei em muita gente e quando vimos estávamos todos abraçados, vibrando juntos como se tivéssemos crescido na mesma rua. Lembro de Dinho vestido de mulher, de Samuel pagando de mau, de Júlio sendo um enrolão que sabia muito bem o que fazia, do Sérgio improvisando na batera e do Bento (ahhhh Bento Rinoto você faz falta para o mundo dos músicos) com cada riff insano em sua guitarra. Lembro do conjunto, da amizade e do profissionalismo daqueles meninos que mudaram o mundo, do jeito deles.

Eu cheguei em casa no outro dia. O castigo foi bravo e por causa dele, a namorada que eu tinha foi “rezar” com outro cara. Tive que me afastar de algumas pessoas e, é claro, nada de Super Bowl. Por um ponto foi até bom, porque o Niners caiu no Divisional Round para o Green Bay Packers de Brett Favre e os Cowboys venceriam com muita facilidade o Super Bowl em cima dos Steelers, num jogo bem feio.

Eu nunca me arrependi de ter ido naquele show e, quando na noite do dia 2 de março de 1996, o avião deles se chocou com a Serra da Cantareira, o mundo ficou muito mais triste, não apenas por suas mortes, mas porque nós nunca, jamais, veremos algo igual. Não é natural do ser humano aceitar o desprendimento, compreender que aquilo que amamos será abruptamente roubado, usurpado de nossas vidas, ainda que nos esqueçamos de que o tempo passa e todos nós ficamos velhos e morremos.

Passaram-se 20 anos e a ferida ainda está aberta, incompreensivelmente dilacerada por uma ausência familiar, quieta, como a fome de não se saber o quê. Sinto falta de algo que vivi por algumas horas, das horas mais felizes que vivi.

Sim, esse é um texto sobre futebol americano. Sobre as coisas que vivemos e a falta que sentimos dos jogadores e dos times incríveis que vimos, juntos, fazerem a nossa história. No mundo da NFL existe o Hall da Fama, onde estão jogadores que construíram o esporte que amamos e que nos enlouquece… todo ano, apenas uma meia dúzia vai parar lá. Ficam eternizados, bustos de bronze, mais acima de tudo, são reverenciados por seus incontáveis feitos e muito mais do que por seus números, sua dedicação ao esporte.

O Brasil é um país sem memória. Não sabe tratar seus heróis, seus craques, sua história. Não sabe diferenciar entre suas temporadas em todos os lados da sociedade àquilo que realmente importa: os feitos. Hoje Pelé é só um cara que tudo quanto fala está errado, o Garrincha não passa de um bêbado de pernas tortas de um futebol lento e manjado, Didi, Mestre Ziza, Domingos da Guia quem?

Só para falar de futebol, sem falar do basquete, do atletismo e tantos outros esportes. Só para falar de esportes. Porque se formos falar de sociedade vamos ainda mais longe: Nelson Rodrigues, Lamartine Babo, Stanislaw Ponte Preta, Adoniran Barbosa… meu Deus!

Hoje falamos de Tom Brady, Peyton Manning, Drew Brees, Aaron Rodgers, Big Ben e Russell Wilson. Temos certeza que estarão no Hall da Fama. Serão reconhecidos. Serão tratados como heróis e vão se juntar a lendas como Troy Aikman, Joe Montana, Terry Bradshaw, Otto Graham, entre muitos outros, só citando os quarterbacks.

Que país é esse? Já dizia, o esquecido Renato Russo. Eu não vou escrever a resposta, que a plateia gritava. Não preciso, seu subconsciente já respondeu. E eu sinto muito.

Este é um texto sobre Futebol Americano. Onde deveríamos aprender que as jogadas devem ser desenhadas, que a participação conjunta sobrepõe talentos individuais, que o líder não pode fugir do confronto, que aquele que não toca na bola é tão essencial para o ataque, quanto aquele que faz o touchdown. Só para os leigos entenderem do que estou falando. Futebol Americano é um MBA é todos os aspectos.

Hoje vamos celebrar a vida de cinco garotos de Guarulhos e seus amigos que fizeram nossas vidas muito mais felizes e influenciaram aqueles que nem haviam nascido.

Não existe um HOF no Brasil, por isso os Mamonas Assassinas jamais serão reverenciados com o respeito e a dignidade que merecem, ainda assim eu farei silêncio em homenagem a esses loucos que me mostraram que as escolhas podem ser dolorosas, que podemos ser punidos por fazer aquilo que amamos, mas e daí? O que é a vida além de momentos que consideramos inesquecíveis.

Obrigado ao Dinho, Bento, Julio, Sérgio e Samuel, por terem me ensinado, ainda que sem querer, que eu tenho direito de escolha, que posso escolher ter saudade, errar, acertar, sorrir, chorar, bagunçar e que nada, nada no mundo é mais importante do que acreditar.

Obrigado a você que leu esse texto. Abraço do U10. Mitos nunca Morrem!

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17 Comentários leave one →
  1. Portuga permalink
    02/03/2016 11:27

    E assim sabemos que leite com pêra existem since 199x

  2. U10 permalink
    02/03/2016 11:36

    Obrigado Danilo por Postar.

    Pessoal, quem ler divulgue esse texto nas suas redes sociais.

    Vamos fazer o que a mídia não está fazendo e homenagear àqueles que marcaram nossas vidas.

    Obrigado.

  3. 02/03/2016 11:44

    Ae Portuga kem tu pensa q eh mano

    Pelasaco chega pagano de bom e pisano na historia dos outros

    Tu naum eh homem tu eh um pia de bosta q naum sabe o q eh nfl nem oq eh musica

    eh por causa de nego como tu q o mundo tah essa merda

    Portuga por isso q fazem piada da tua raça

  4. Leo Cavalcanti permalink
    02/03/2016 11:51

    Dessa vez U10 exagerou… um desses garotos que ele citou acima… o líder daquela que foi a mais revolucionária banda que apareceu no país… estávamos exatamente no mesmo lugar… era verão e o ano era 1.994… e qual lugar era esse senão Praia Grande… eu preocupado com o que minhas filhas estavam fazendo no meio dum agito, com um cara fazendo troça de tudo que passava… a filha mais nova, na época tinha apenas 6 anos, mas parecia ter sido hipnotizada por aquele cara… ele cantava, fazia piadas, um tremendo gozador… meus sobrinhos na mesma faixa etária do cara, incentivavam ele a ficar cada vez mais animado… claro que na base da cerveja… mas o importante é que ele me cativou na hora… fiquei por lá… do lado da minha filha mais nova… a mais velha saiu de fininho, com um paquera…mas a coisa foi rolando até umas 2 da manhã… o “show particular” já tinha acabado e ele pediu uma carona… disse que ficava pertinho de onde estávamos… como só eu estava “disponível” naquela hora, acabei cedendo aos pedidos da minha filha pra levarmos aquele hipnotizador até sua casa… no caminho ele foi falando um monte de coisas engraçadas… e cada vez mais me conquistando… até que o percebi que o pertinho que havia falado onde estava hospedado estava a 16 km de distância… chegamos lá… e na hora de descer do carro ele deu um abraço e um beijo na minha filha e falou que um dia ela seria a sua fã mais querida, como que prevendo o sucesso que faria… bem o tempo passou e quando os Mamonas Assassinas estouraram nas paradas ela lembrou daquele abraço que o Dinho (só depois fiquei sabendo o nome daquele rapaz) era a pessoa que tínhamos dado carona naquele dia que foi inesquecível pra ela… e comprei o CD da banda… que tenho guardado até hoje… e quando a notícia do trágico acidente ocorrido em 2 de março de 1996 saiu pela manhã dum domingo não houve o que fizesse fazer minha filha parar de chorar… nem mesmo a expectativa do dia seguinte… ela entraria pro primeiro ano do ensino fundamental… o tempo passou, e como não somos acostumados a dar valor aos nossos ídolos, eles quase caíram no esquecimento… mas a revolução que fizeram nunca sairá das cabeças duma geração que aos poucos vai reconstruir nosso país… é por essa geração que eu acredito que ainda vale a pena insistir no Brasil… é uma geração diferenciada da minha, que fez algumas transformações importantes… mas não o suficiente pra mudar uma sociedade… nossos valores eram todos importados… não tivemos aquele bando de loucos a moldar nosso pensamento de que era possível fazer sonhos vivarem realidade… eles tiveram um sonho… um sonho que virou realidade e fui testemunha desse sonho… e melhor ainda… minha filha também viveu esse sonho…
    Que nunca morra o sonho vivido pelos MAMONAS ASSASSINAS…

    • U10 permalink
      02/03/2016 13:18

      Exagerei Leo… rs… pensei em fazer um artigo mais curto, mas me empolguei mesmo.

      • Leo Cavalcanti permalink
        02/03/2016 14:10

        Não tem como não se se empolgar falando de coisas que te remetem á fatos marcantes da adolescência… é uma forma legal de se voltar no tempo…

  5. TOM permalink
    02/03/2016 12:54

    Os caras eram realmente demais. Parabéns U10.

  6. Gladson Pendragon permalink
    02/03/2016 13:10

    Danilo, estive nesse show em 1995, um dos melhores e mais divertidos em minha vida. Tinha acabado de concluir o ensino médio, encontrei amigos dos tempos do São Sebastião e do IE. Engraçado saber por esse texto que um dos caras de maior respeito no futebol americano no Brasil é de minha cidade natal. Orgulho-me em saber disso.

    • U10 permalink
      02/03/2016 13:23

      Cara, eu não nasci em Ponta Grossa, mas morava lá nessa época e estudava no Sepam. O pessoal daí eh muito firmeza, pensa uma galera gente boa e humilde. Além de achar muito legal ver os guris dizendo: aDEvogado, LEPETOPE, sempre aquele E fortE nas palavras…

      Um salve pra todo mundo da região.

  7. U10 permalink
    02/03/2016 13:25

    Pessoal, se houvesse um Hall da Fama da Música Brasileira, quem você colocaria lá?

    • Leo Cavalcanti permalink
      02/03/2016 14:36

      Eita… esse desafio é mais complicado que falar sobre quem vai ser o melhor jogados de FA… mas assim como você não dá pra ficar parado e não aceitar o desafio…
      Tem tanta gente-boa que fica difícil… mas podemos fazer por ordem cronológica… vou avisando que só posso falar a partir da década de 60… rsrsrsrs… antes disso posso colocar apenas uns 3 ou 4 nomes que ainda fazem sucesso…

      Anos 50-59 – Cauby Peixoto, Angela Maria, Dolores Duran e Nelson Gonçalves, Gonzagão…
      Anos 60-69 – Altemar Dutra, Agostinho dos Santos, Roberto Carlos, Vinicius de Morais, Tom Jobim, Nara Leão, João Gilberto, Mutantes, Dick Farney, Caetano, Gil, Chico Buarque…e Elis Regina (a maior de todas)
      Anos 70-79 – Gonzaguinha, Milton Nascimento, Ivan Lins, Belchior, Zé Rodrix (grande irmão…) Tim Maia, Ney Matogrosso (junto com os Secos e Molhados foram um fenômeno), Beto Guedes, RPM, Fagner, Djavan e o maior de todos… Raul Seixas
      Anos 80-89 – Simone, Alcione, Emílio Santiago, João Bosco, Kiko Zambianchi, Renato Russo (junto com Capital Inicial), Paralamas do Sucesso, Roupa Nova, Xitãozinho e Xoxoró (única exceção pra esse tipo de música…música?????…. rsrsrs) e o maior de toda década…. Cazuza
      Anos 90-99 – Lulu Santos, Cassia Eller, Marisa Monte, Rosa Maria, Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Gabriel Pensador…. e Mamonas Assassinas
      Anos 2000 – 2016 – apenas meus netos…. rsrsrsrs

      • Leo Cavalcanti permalink
        02/03/2016 14:38

        citei apenas alguns tá… se tiver que fazer uma seleção deles aí vai ser mais fácil assistir uma palestra inteira da Marilena Chauí sem poder sair nem pra ir ao banheiro… rsrsrsrs… é tanta gente boa que não dá pra rankear…

  8. Jay Cutler permalink
    02/03/2016 13:51

    Belo texto U10.

  9. Go Patriots permalink
    02/03/2016 19:06

    Belo texto mesmo U10, tanto pela lembrança dos Mamonas quanto pelas da sua adolescência. E concordo em gênero, número e grau com o Hall da Fama feito pelo Leo. Duro é ver a pobreza atual da música brasileira quando se relembra essa turma genial.

    • Leo Cavalcanti permalink
      02/03/2016 19:25

      Tô querendo saber qual seria o HOF da galera…

  10. 04/03/2016 09:05

    Amigos, hoje é um dia feliz!
    O cumpanheiro Lula foi dar uma voltinha no Uber da PF!
    Que seja o inicio de uma nova esperança para o povo honesto deste pais!

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